| Nos três
últimos anos, quando os preços internacionais dos
principais produtos do agronegócio brasileiro estiveram elevados
ou quando o câmbio esteve favorável, os produtores
rurais ignoraram a importância da tributação,
do câmbio e da logística e nem se deram conta do imenso
prejuízo que sofreram. Com a reversão do quadro de
preços, essas questões estão ficando ainda
mais visíveis, permitindo identificar os obstáculos
e reagir ordenadamente contra os problemas existentes da porteira
da fazenda para fora.
Ao focalizar os problemas e os custos logísticos do agronegócio,
vale registrar o desequilíbrio entre a produção
e a capacidade de armazenagem. A Companhia Nacional de Abastecimento
(Conab) indica que temos uma capacidade estática da ordem
de 100 milhões de toneladas, quando deveríamos ter
150 milhões. Entretanto, como nossa fronteira agrícola
avançou, no Centro-Oeste a situação é
mais grave. Produzimos competitivamente, mas não possuímos
boas condições de estocagem e corremos o risco de
perder os produtos.
O problema se agrava quando a comercialização fica
mais lenta e/ou quando a malha viária apresenta precariedades,
como atualmente ocorre, ora impossibilitando a movimentação,
ora tornando-a mais cara. A decisão de construir armazéns
é dos produtores, que não priorizaram tais investimentos,
mas manter e construir estradas é obrigação
dos governos federal e estaduais. Para isso o poder público
conta com os recursos da Cide, contribuição que tem
sido desviada para cobrir dispêndios fora de sua finalidade.
Segundo os dados disponíveis, existem mais de R$ 10 bilhões
contingenciados - com a metade desses valores revitalizaríamos
toda a malha rodoviária. Em 2004, o valor médio do
frete Goiás-Paranaguá - uma das principais rotas de
escoamento da produção agrícola brasileira
- passou de US$ 20 para US$ 40 por tonelada.
Nos portos, onde a Lei Federal n 8.630/93 provocou uma verdadeira
revolução, reduzindo os custos operacionais para menos
da metade e mostrando que parcerias público-privadas, quando
adequadamente geridas, criam soluções, também
há muitos problemas. Os portos melhoraram substancialmente
o atendimento aos usuários; a reforma, entretanto, não
está completa. É necessário que se conclua
o ajuste das relações trabalhistas e se consolidem
marcos regulatórios que levem à normatização
inteligente dos investimentos e das operações.
Diferentemente do que ocorre com as rodovias, os investimentos
governamentais nos portos são um problema menor. As dificuldades
estão na deficiência de gestão. Vejamos o caso
de Paranaguá, principal porto brasileiro de escoamento de
grãos. Os recursos disponíveis são suficientes
para a manutenção, melhoria e ampliação
das instalações. Todavia, nos últimos dois
anos a administração não realizou as aplicações
determinadas pelo Conselho da Autoridade Portuária e desorganizou
as operações de atracação, do corredor
de exportação e da recepção de mercadorias.
Com isso, os prêmios relativos à classificação
internacional desse porto pela Bolsa de Chicago converteram-se em
negativos, gerando, somente na exportação do complexo
soja em 2004, um prejuízo de mais de R$ 1,6 bilhão
para os produtores paranaenses. Para os demais segmentos direta
e indiretamente ligados ao agronegócio brasileiro estima-se
um prejuízo de US$ 1 bilhão, pois a partir dos preços
da Bolsa de Chicago são definidos não somente os prêmios
e os preços FOB nos diversos portos como também cotações
de frete marítimo, transbordos, taxas portuárias,
armazenagem, fretes terrestres, seguros, etc. O que sobra é
a remuneração do agricultor.
Como em logística os problemas propagam-se em cadeia, essas
distorções alcançam também a navegação
de cabotagem entre portos brasileiros. Temos registros de que o
frete entre Rosário (Argentina) e Recife, uma rota com aproximadamente
5.200 km, custa menos do que o frete Paranaguá-Recife, que
cobre somente 2.800 km. Isso ocorre principalmente porque o transporte
tem de ser feito por empresas de navegação nacionais,
que são oneradas fortemente por tributos e questões
trabalhistas, dentre outros problemas. Esta é uma das razões
pelas quais o trigo, o milho e o arroz do Sul do País não
conseguem competir com o produto importado.
Neste quadro adverso tem sido evidente a omissão da agência
reguladora - a Antaq - e do Ministério dos Transportes. Em
dois anos de desmandos e desrespeito à lei em Paranaguá,
não houve a intervenção federal reclamada pela
comunidade do agronegócio, que seria a providência
legalmente correta. O agronegócio é uma vocação
natural do País, a base do emprego e do mercado interno.
Os Poderes Executivo e Legislativo devem ser pressionados a zelar
efetivamente pelo cumprimento da lei e a promover o expurgo dos
administradores despreparados, seja em nível estadual ou
federal. |