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Países iniciam hoje reunião para
evitar a guerra cambial


22/10/2010 - DCI

SÃO PAULO - A guerra cambial é o principal tema da reunião do Grupo dos vinte (G-20, formado pelos países ricos e os principais emergentes), que começa hoje em Gyeongju, na Coreia do Sul. O encontro é uma preparação para a cúpula que o G-20 fará em novembro, também na Coreia, na tentativa de evitar que a situação cambial se agrave no mundo.

O Brasil não mandará representante à reunião que começa hoje. Ontem, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmou que não irá à reunião (leia mais na página A3).

O clima de cooperação que marcou o esforço do G-20 na superação da crise financeira global, quando todos estavam no mesmo barco, desapareceu.

Como nenhum país quer sua moeda valorizada neste momento de retomada, especialistas veem dificuldade na obtenção de um acerto firme.

As desavenças sobre o câmbio ficam ainda mais claras. Além do eterno atrito entre os Estados Unidos e a China, diversas autoridades vieram a público nos últimos dias para esquentar o debate. Mesmo depois de intervir para segurar o iene, o Japão chegou até a questionar a liderança do grupo exercida este ano pela Coreia do Sul, um dos tantos países que buscam combater a apreciação cambial.

Muitos culpam a política ultraacomodatícia do Federal Reserve, reflexo da recuperação econômica cambaleante, pela onda de fluxo de recursos que chega aos emergentes, ameaçando até o surgimento de bolhas.

O Brasil lidera o movimento de reação ao elevar seguidamente o imposto sobre o capital externo. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, já afirmou que o País não pode "pagar o preço" pelos problemas nos países desenvolvidos.

Ausência

A ausência de Mantega na reunião ministerial deste fim de semana, preparatória para o encontro de cúpula em novembro, soou desanimadora. O diário britânico Financial Times declarou que mostrar "tão pouca fé na fase de planejamento não inspira confiança no evento principal". A Índia também emitiu sinais que não foram bem recebidos. Membros do governo indiano afirmaram ao FT que o grupo está em "sérias dificuldades" e sem consenso sobre o diagnóstico dos problemas cambiais.

"Se o G-20 está perdendo credibilidade com o Brasil e a Índia, está com um problema sério", argumenta o jornal britânico, já que os emergentes são os principais beneficiados pela ascensão de um fórum decisório mais amplo que o G-7. Tanto que o posicionamento acendeu preocupação em Washington: os Estados Unidos pediram ontem que o Brasil e a Índia não deem as costas para o grupo.

Entre tantos alertas feitos para a necessidade de cooperação, um dos mais firmes veio do presidente do Banco da Inglaterra, Mervyn King. Ele disse que pode ser apenas uma questão de tempo para que um ou mais países embarquem em protecionismo comercial. Ele prevê "consequências arruinadoras" se autoridades não agirem pelo interesse coletivo.

Emergentes

Uma alta funcionária do Tesouro norte-americano, que pediu anonimato, disse ontem que o Brasil e a Índia - duas das maiores economias emergentes do mundo - foram até agora "grandes defensores do G-20" e são os que "mais têm a ganhar" se o grupo continuar ativo.

A fonte do Tesouro explicou que "Brasil e Índia estão entre os países que realmente mais têm a ganhar" caso perdure a cooperação internacional mantida até agora pelo G-20.

Os Estados Unidos são de opinião de que as políticas "nacionais" iniciadas por alguns países para melhorar sua competitividade "não estão sendo efetivas", destacou a funcionária do Tesouro norte-americano.

Segundo ela, a única maneira de conseguir um crescimento equilibrado e sustentável é buscar "medidas coordenadas" em nível mundial.

"É do interesse desses países [emergentes] buscar soluções conjuntas nas negociações do G-20 e ver como este grupo emerge transformado no principal fórum de cooperação em temas como financeiros e econômicos", avaliou a funcionária.

Um projeto de comunicado, que deve ser divulgado ao final do encontro da Coreia, afirma que o G-20 quer "minimizar os efeitos adversos de uma excessiva volatilidade e de movimentos desordenados nas taxas cambiárias", refletindo preocupações dos países asiáticos e outras nações exportadoras pela forte alta de suas moedas nas últimas semanas. Entretanto, a declaração final pode não coincidir com este documento.

A guerra cambial é o principal tema da reunião do G-20, formado pelos países ricos e pelos principais emergentes, que começa hoje em Gyeongju, na Coreia do Sul. O encontro é uma preparação para a reunião de cúpula do G-20 em novembro também na Coreia.

O Brasil não mandará representante à reunião que se inicia hoje. Ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega, confirmou que não irá à reunião e disse que conversou por telefone com o secretário do Tesouro norte-americano, Timothy Geithner, sobre a guerra cambial.

Segundo Mantega, o contato foi iniciativa de Geithner. Na conversa, o secretário norte-americano afirmou que a política dos Estados Unidos não é desvalorizar o dólar, mas fortalecer a moeda norte-americana.

"Nós dois vamos fazer força, para colocar a questão no âmbito do G-20, de modo que as soluções para a questão do câmbio sejam negociadas, e não individuais para cada país", afirmou Mantega. "Acho que isso vai avançar."

O ministro prevê que o G-20 anunciará, ao final da reunião, que agirá em relação ao câmbio. "E isso vai mostrar para o mundo que não vai ser uma ação unilateral, que poderia levar a sérios problemas comerciais", disse.

Ontem, depois de três semanas, a taxa de câmbio no Brasil voltou a encerrar os negócios no patamar de R$ 1,70. A alta de ontem, vista por operadores como um efeito acumulado das medidas já anunciadas pelo governo, foi a maior desde 6 de maio, quando a taxa subiu 2,8% no dia. O dólar chegou a bater a cotação mínima de R$ 1,673, mas encerrou o dia na faixa mais alta de preço, R$ 1,702, o que representa um aumento de 1,61% sobre a taxa final de quarta-feira. A forte alta de ontem pode ser interpretada como um efeito acumulado das medidas oficiais já anunciadas.


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