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China atravanca acordo de reequilíbrio global


24/01/2011 - Valor Econômico

A China foi o país mais reticente na primeira tentativa do G-20 para definir "parâmetros indicativos" que serão usados para levar as nações com déficits ou superávits comerciais excessivos a fazerem correções em suas políticas.

O Valor apurou que a China foi o único país que apareceu em reunião técnica do G-20, na semana passada, sem qualquer proposta de indicador, ilustrando sua resistência em tratar de câmbio e comércio. Entre parceiros, existe o temor de que Pequim atrase bastante essa negociação. Ao mesmo tempo, os alertas crescem de que desequilíbrios globais vão é aumentar e que a guerra cambial pode se tornar mais severa.

Na cúpula de Seul, em novembro, os EUA fracassaram na tentativa de o grupo estabelecer que o déficit ou superávit das contas correntes dos países não supere 4% do Produto Interno Bruto (PIB). A partir desse patamar, seriam deflagradas negociações para sua redução.

A ideia de Washington é de que países com déficits devem poupar mais e ampliar as exportações. E os superavitários, como a China e a Alemanha, precisam adotar políticas cambiais, estruturais e fiscais para estimular fontes domésticas de expansão e importar mais.

Em Seul, o compromisso entre os líderes do G-20 foi de mandar os ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais desenvolverem com o Fundo Monetário Internacional (FMI) "parâmetros indicativos" para servir de mecanismo de identificação de "amplos desequilíbrios que requerem ações preventivas e corretivas".

Na semana passada, a França, na presidência do G-20, fez a primeira reunião de vice-ministros de Finanças para cumprir a tarefa, preparando o terreno para a reunião ministerial em fevereiro, quando deverá haver a primeira avaliação.

Mas a China não só não cooperou, como quis frear tudo. Do outro lado, os EUA e a Austrália se mostraram os mais apressados. Para os americanos, os indicadores servem como meio de pressionar a China a permitir a valorização de sua moeda, o yuan, que Washington considera como artificialmente baixa e subsidiando deslealmente as exportações.

Os vice-ministros no G-20 terminaram esboçando cinco indicadores para serem levados aos ministros e presidentes de BCs em fevereiro: a composição das contas correntes, um indicador do setor privado (poupança ou endividamento), crescimento do crédito, situação fiscal e ativos líquidos no exterior (incluindo as reservas). Por exemplo, um país com déficit fiscal menor pode reduzir taxas de juros, colocando menos pressão sobre o câmbio e fazendo importações mais custosas e exportações mais competitivas.

Outro indicador que está sendo considerado é o uso da Taxa de Câmbio Efetiva Real (REER, em inglês), que a Agência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad) recomenda como central para diferenciar entre desequilíbrio comercial sustentável ou não. Argumenta que uma REER baseada no custo unitário da mão de obra é mais valida para constatar as mudanças na competitividade do que a inflação.

Só depois de definidos os "parâmetros" é que o FMI e outras organizações internacionais vão preparar estudos sobre as raízes do desalinhamento mundial e que providências tomar, para eventualmente apontar países específicos, tudo isso exigindo mais negociações.

Na teoria, existe entendimento no G-20 sobre a necessidade de reequilibrar a demanda global. Os conflitos são sobre o ritmo apropriado, com países desenvolvidos querendo colocar o pé no acelerador; sobre quais as estratégias, por exemplo no câmbio; e sobre qual a melhor arquitetura financeira e monetária internacional.

Um exemplo da dificuldade da tarefa: globalmente, para compensar uma queda de 1% no consumo dos EUA, o consumo na China deveria aumentar 7%. Reequilíbrio mundial no consumo exige mudança nas estruturas de produção, e tentar acelerar isso é delicado inclusive politicamente. Em todo caso, o ajustamento das taxas de câmbio é considerado por boa parte de países como parte integral da estratégia de reequilíbrio ordenado.

Mas, em visita aos EUA, o presidente chinês, Hu Jintao, deixou claro que Pequim fará reformas no ritmo e estilo de sua escolha e não admitirá interferência externa. E insistiu que o valor da moeda "não é o problema, e sim que a China é mais produtiva, com custo mais baixo da mão de obra".

O fato é que, passado o pior da crise global, a cooperação no G-20 perde fôlego. Nesse cenário, negociadores alertam para o alto custo que pode trazer um sistema financeiro e monetário global desorganizado. E novos estudos mostram que os desequilíbrios se ampliam na economia mundial.

Sobretudo os déficits fiscais devem crescer nos próximos cinco anos em muitas economia com déficits em contas correntes, como os EUA. Não há expectativa de ajuste significativo nas taxas de câmbio, apesar do forte diferencial no ritmo de crescimento dessas economias. E os estoques de ativos líquidos no exterior aumentam em vários países com saldos nas contas correntes, como a China.


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