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Brasil poderá discutir câmbio com a
China durante reunião em Davos


25/01/2011 – Valor Econômico

GENEBRA - O governo de Dilma Rousseff terá na quinta-feira a primeira oportunidade de tratar com a China a questão cambial, em meio à crescente pressão do setor privado para Brasília elevar barreiras contra produtos chineses. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, terá a primeira reunião de alto nível com um representante chinês, o ministro do Comércio, Chen Deming, à margem do Fórum Mundial de Economia, em Davos, na Suíça. Será com agenda aberta, devendo cobrir desde o relacionamento bilateral até as negociações da Rodada Doha.

A China está confortável com a situação atual, inundando o mercado com a desvalorização forçada de sua moeda. A mensagem brasileira em Davos, porém, tanto para os chineses como para os outros parceiros, será de que o câmbio muda completamente a posição negociadora do Brasil na Rodada Doha e tem influência também nas relações comerciais bilaterais. Para Brasília, política cambial no comércio é subsídio disfarçado à exportação e proteção adicional ao produto interno.

O governo está sendo cobrado para usar o mecanismo de salvaguarda especial contra a China para frear a alta de importações originárias daquele país, por exemplo. É um instrumento previsto no processo de adesão de Pequim na Organização Mundial do Comércio (OMC). Pode ser aplicado até 2013. Ocorre que Pequim sempre advertiu, tanto o Brasil como outros parceiros, que usar essa salvaguarda contra seus produtos significaria discriminação e que retaliaria. E insistiu que aceitaria ser submetido a sobretaxas antidumping, mas não a essa salvaguarda.

O que o governo vai fazer de fato, fora a retórica, não está claro. Mas Pequim não quer tocar na questão cambial e "não vai gostar" de ser levado a abordar o tema ou suas consequências, nem em Davos nem em outros fóruns.

Como o Valor revelou ontem, a China foi o único país dentro do G-20, grupo das maiores economias ricas e emergentes, que sequer propôs indicadores que serão usados para levar países com déficits ou superávits comerciais excessivos a fazerem correções em suas políticas.

Em Davos, haverá uma série de reuniões sobre comércio. Tanto bilaterais, como a de China e Brasil, como outra do Ibas (Índia, Brasil e África do Sul) com a China, e ainda duas miniministeriais reunindo vários países.

Na prática, porém, ninguém dá indicações ou crê na possibilidade de introduzir câmbio nas negociações da OMC. Para a professora Vera Thorstensen, diretora do Centro do Comércio Global e do Investimento, da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, está todo mundo interessado em concluir a combalida Rodada Doha, a ponto de fechar os olhos para uma realidade flagrante.

Ou seja, a de que os países negociaram dez anos na OMC com base em simulações de fluxos comerciais de 1992-95, que hoje são inúteis diante de taxas persistentes de desvalorizações no longo prazo. Para ela, não tem sentido fechar uma rodada global de liberalização ignorando as distorções do câmbio, porque a moeda desvalorizada torna as concessões e instrumentos negociados ineficazes.


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