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Nos cem dias, inflação volta à cena


08/04/2011 - VALOR ECONÔMICO

Dúvidas. Ao fim dos cem primeiros dias de governo da presidente Dilma Rousseff, o tema inflação domina o debate econômico e as expectativas prosseguem em deterioração. Há muita incerteza sobre a disposição do governo de usar todas as armas - especialmente os juros - para levar a taxa de inflação à meta de 4,5% em 2012.

Enquanto o Banco Central indica que a variação do IPCA este ano deverá ser de 5,6% e garante que a meta será rigorosamente cumprida no ano que vem, os agentes do mercado projetam o índice em mais de 6% este ano e 5% no próximo.

Ontem, com a divulgação do IPCA de 0,79% em março, a taxa acumulada em 12 meses chegou a 6,3%, pode romper o teto de 6,5% este mês e atingir mais de 7% em agosto, estimam analistas privados.

O forte aumento dos preços das commodities no segundo semestre de 2010 e no início de 2011 encontrou, no país, a economia muito aquecida. O então presidente Lula ao patrocinar, no ano eleitoral de 2010, uma política fiscal expansionista e uma política de juros aquém do necessário, deixou para Dilma Rousseff a tarefa de combater a aceleração inflacionária. A elevação dos preços no primeiro trimestre deste ano, asseguram fontes oficiais, já estava contratada no fim de 2010.

Incertezas pesam sobre o cenário econômico

O BC ainda está confiante que as taxas mensais do IPCA vão retroceder para o nível de 0,40% a partir de maio. Já indicou, também, após a divulgação do Relatório de Inflação, que pode aumentar os juros mais do que o mercado imagina hoje, se for necessário. O jogo, ao que parece, apenas começou.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou, ontem, mais uma medida de restrição ao crédito, na série gradualista de decisões governamentais para responder ao aumento dos preços: dobrou o IOF de 1,5% para 3% sobre o crédito ao consumo, exatamente como fez em janeiro de 2008, quando a economia também estava a pleno vapor. Naquele ano, o resultado da medida foi questionável. A oferta de crédito caiu no primeiro mes, estacionou no segundo e voltou a crescer. Agora, tanto Fazenda quanto BC entendem que a medida terá mais eficácia porque há restrições ao aumento nos prazos dos financiamentos.

No cenário, tal como posto agora, cresce o ceticismo. Não há como controlar a inflação e cumprir a meta de 4,5% em 2012 sem que o PIB, em algum momento desse processo, caia para a casa dos 3%, argumentam os economistas privados. Mantega, contudo, mantém a projeção de crescimento de 5% e o BC, de 4%, para o ano.

A apreciação da moeda disputa com a inflação a primazia na lista de preocupações do governo nestes cem dias. Mantega se revela incansável na sua batalha contra a excessiva apreciação do real frente ao dólar, embora saiba que essa é uma guerra que já tem vencedor.

O câmbio real é hoje o mais valorizado desde 1980 (ver tabela abaixo) e o fluxo de dólares para o país, de US$ 35,6 bilhões líquidos no primeiro trimestre, é o maior já visto. A cotação do dólar, que encerrou dezembro em R$ 1,666, ontem era de R$ 1,584. Em vez de brigar contra a valorização do real e, com isso, internalizar a inflação das commodities, cresce no governo a ideia de aproveitar a realidade como mais uma arma no combate à inflação.

De janeiro para cá a gestão de Dilma Rousseff anunciou o corte de R$ 50 bilhões nos gastos públicos e se comprometeu em produzir superávit primário de 2,9% do PIB sem malabarismos. Conseguiu limitar o reajuste do salário mínimo em R$ 545, com correção de 6,27% e praticamente nada de aumento real. O Banco Central elevou a taxa de juros em 100 pontos, de 10,75% ao ano para 11,75% ao ano.

Medidas prudenciais do BC começaram a ser tomadas desde o fim de 2010. Cerca de R$ 80 bilhões foram retirados do mercado com o aumento dos recolhimentos compulsórios dos bancos. Determinou, ainda, aumento de requerimento de capital para operações de crédito ao consumo de prazos mais longos. Impôs compulsório sobre a posição "vendida" em câmbio dos bancos, que caiu de US$ 16,8 bilhões para US$ 8,8 bilhões entre dezembro e março.

O conjunto de medidas do BC fez desacelerar um pouco a expansão do crédito. Os gastos do governo no primeiro trimestre cresceram em ritmo bem menor do que no mesmo período do ano passado. Mas, por enquanto, os sinais de desaquecimento da economia são tênues e nada triscou a inflação.

É certo que esse não é um problema exclusivo do Brasil. A inflação ameaça as economias emergentes e desenvolvidas, como um fantasma do pós-crise global. No país, ela encontra uma economia parcialmente indexada e uma superindexação do salário mínimo que, vai, sem dúvida, exigir esforços redobrados para fazer a inflação convergir para o centro da meta em 2012.


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